RESISTÊNCIA AO CENSO

O Censo é o retrato de corpo inteiro de quem somos como país. Mesmo com iniciativas regulares como a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), nada o substitui. Fico imaginando que, para o IBGE, não fazer o Censo a cada dez anos, e não gerar seu produto mais nobre, é tão doloroso como o drama do atleta que se machuca às vésperas da Olimpíada.


Para a definição de políticas públicas, para a tomada de decisões que envolvem investimentos, em qualquer área da vida nacional, pública ou privada, o Censo é um guardrail essencial.


A resistência do atual governo à realização do Censo agride os princípios mais elementares de sensatez e de respeito à história impecável que o IBGE tem cumprido, em todos os governos de que tenho lembrança. É uma resistência que não se explica por qualquer critério com alguma dose de racionalidade. É tão incompreensível como a pressão a favor da cloroquina ou do retorno ao voto impresso.


Até onde sabemos hoje, o STF foi obrigado a agir para que o Censo seja realizado, ainda que tardiamente, em 2022. E, com isso, o governo deve se obrigar a colocá-lo em campo.


As notícias que partiram do Ministério da Economia revelavam que não haveria recursos disponíveis para isso. Uma explicação suspeita, porque falta de dinheiro é sempre o primeiro motivo que se apresenta para não sair do lugar e tapar a boca dos interlocutores. Mas, na maior parte dos casos, a falta de recursos espelha apenas a falta de prioridade.


A outra razão apresentada para deixar o Censo de lado foram os protocolos sanitários. Ora, convenhamos, num país onde o modelo de comportamento que vem do Palácio do Planalto é a negação das pautas sanitárias mais básicas prescritas pela OMS e pela ciência, o discurso oficial para inviabilizar o Censo é vazio. Apenas uma forma de desconversar ou, como diz a gíria, um papo de cerca-lourenço.


E se fuçarmos um pouco mais, e nem é preciso gastar muito tempo, haveremos de encontrar outras desculpas tão esfarrapadas como essas para impedir o trabalho do IBGE. Por exemplo, a crença de que 57 milhões de votos, conquistados democraticamente, são um atestado de profundo conhecimento do que pensam, sentem, e como vivem os brasileiros. Censo? Que bobagem! Que perda de tempo e dinheiro. Nós, dirigentes do país, estamos sempre conversando e ouvindo a sociedade, seja a pé, a cavalo, de moto, no Twitter… Essa é a visão etnocêntrica que deve passar pela cabeça de quem vê o país apenas a partir do Palácio do Planalto.


Pois bem. Mas a verdadeira razão para resistir ao Censo não é nenhuma dessas. Ela está escondida muito mais abaixo da superfície. A verdadeira razão é o inconfessável medo de ver o Brasil como ele é de verdade, de corpo inteiro, com todas suas mazelas, com suas terríveis e incuráveis distorções sociais. É uma ilusória blindagem mental para impedir que se veja, como, de fato, somos. É algo como quebrar o termômetro para acabar com a febre.


O Censo mostrará o que incomoda e o que a atual gestão do país talvez não queira enxergar. Sem ele, cria-se a imagem distorcida que mais convém. Como o alferes Jacobina no conto do Machado de Assis "O Espelho", que não se enxergava no espelho a não ser devidamente fardado. Um Dorian Gray tropical.


Estamos diante de um permanente surto de negação da realidade.


Enxergar um Brasil diferente daquele que o criterioso levantamento que o IBGE revela a cada dez anos é, intencionalmente, tapar o sol com a peneira.


Contra essa intenção de ocultar quem nós somos, de negar o direito de nos vermos por completo, impossível não nos lembrarmos dos inquietantes versos de Cazuza: “Brasil! Mostra a tua cara/ Quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim”.


Sem Censo, vamos continuar escondendo a nossa cara de nós mesmos. Impedidos de ver plenamente nossa realidade, mas apenas sombras no fundo da caverna. Puro nonsense!


Jaime Troiano, Presidente da TroianoBranding


Foto: Operários (1933), Tarsila do Amaral


*Publicado originalmente em O Globo.