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Vinho do Porto: Na esquina da Rua da Bica com a Regent Street

Por: Gabriel Troiano e Patricia Ferraz


Gosta de vinhos? Então esse artigo é para você! E, se não gosta, mas gosta de entender como as marcas entram em nossas vidas e nas histórias dos lugares onde moramos, também é para você. E, ainda mais, se estava em dúvida do que unia Portugal e Reino Unido, a resposta é o vinho do Porto!


Começamos pela história do vinho do Porto em si. Talvez, o mais interessante dessa epopéia toda que vamos contar é o fato de que as uvas vinham sendo plantadas em Portugal desde a antiguidade. Os romanos que chegaram a Portugal no século II AC, e viveram lá por mais de 500 anos, cultivavam vinhas e faziam vinho nas margens do rio Douro, onde hoje se produz o vinho do Porto. No entanto, em 1386, com o tratado de Windsor e, em 1654, com o tratado comercial Anglo-Português, os mercadores ingleses e escoceses que passaram a morar em Portugal ganharam mais liberdade para construir alianças entre os dois locais, alianças que foram fortificadas através da importação de lã e algodão e a exportação do que hoje é conhecido como o vinho do Porto. Esses acontecimentos fazem do vinho do Porto um produto único e somente produzido em Portugal, como uma tradição também britânica.


A autoria da ‘receita’ do vinho do Porto é um assunto polêmico e traz uma rixa entre as nações! Por um lado, os britânicos dizem que foram os criadores, ao adicionarem brandy ao vinho para que não azedasse, e, do outro lado, temos a história junto aos portugueses que já produziam e armazenavam o vinho do Porto dessa maneira para conservá-lo por mais tempo. Mas, independente do verdadeiro autor, existem diversas casas de vinho do Porto reconhecidas e fundadas em sua grande maioria pelos britânicos.


E, é claro, não podemos deixar de citar algumas marcas. Escolhemos três: duas inglesas e uma portuguesa. Essas são marcas que talvez você já tenha visto em supermercados ou restaurantes: Graham’s e Taylor’s, que foram criadas por empreendedores e visionários britânicos, e Ferreira, que conforme consta, é a única casa de vinho do Porto 100% portuguesa!


Graham’s, por exemplo, é uma marca que conta a história de duas famílias de origem escocesa: os Grahams e os Symingtons. A empresa foi fundada por dois irmãos, William e John Graham, em 1820, mas foi a aquisição da Quinta dos Malvedos e a construção do Graham’s Lodge em Gaia, em 1890, que realmente fez a marca explodir. E, ainda mais, em 1882, Andrew James Symington navegou da Escócia para o Porto, para trabalhar com a família Graham, dando assim início a parceria entre as famílias. Finalmente, em 1970, os netos de Andrew Symington adquiriram a empresa quando ela estava à venda e, desde então, a família tem construído e alimentado a reputação desses vinhos do Porto, que são tão adorados no mundo inteiro.


A história da marca Graham’s vai além do que uma simples colaboração entre famílias. Ela representa a conexão entre dois locais que são tão diferentes, mas que neste caso, se alinham perfeitamente para criar um produto incrivelmente prazeroso. Não conhecemos muitas marcas que tenham esse link duplamente patriótico tão forte. Graham’s vem da mente britânica, e ganha vida através do joie de vivre português. É um ‘case’ muito especial, uma lição de Branding em saber, sobretudo, manter o espírito português da região do Porto, sem perder as origens britânicas.


A marca Taylor’s, também seguiu o mesmo caminho. A história do produto começa em 1692, com a chegada a Portugal do comerciante inglês, Job Bearsley. Após comercializar o “vinho tinto de Portugal” na região do Minho, seu filho mais velho, Peter Bearsley, foi um dos primeiros a atravessar a Serra do Marão, um terreno montanhoso e inóspito que separa o litoral da região do Douro. Como muitos na época só compravam e faziam negócios nesta região através de intermediários, Peter facilitou a permanência dos ingleses no Douro. Os filhos de Peter, mais notavelmente Bartholomew Bearsley, também foi o primeiro exportador a comprar uma propriedade no Douro, feito que desenvolveu a relação entre os comerciantes e os agricultores na região. Após os “anos Bearsley,” a cultura e tradição do vinho Taylor’s foram passadas de geração em geração, expandindo os negócios e aperfeiçoando seu principal “selling point”: as uvas.


Finalmente, temos a Ferreira, uma marca Portuguesa que foi fundada em 1751, portanto hoje com mais de 270 anos de história. A família Ferreira da Régua foi a responsável por produzir e comercializar seus vinhos do Porto, crescendo significativamente no século 18. A partir desse período, começaram a investir em vinhos de mais alta qualidade ao comprar e cultivar em algumas das principais quintas do Douro. Esse crescimento continuou no século 19 com Dona Antónia Adelaide Ferreira (descendente direta da família Ferreira). Foi com ela a alavancagem da marca para um novo patamar, impulsionada por suas vocações empresariais, investindo em novas e melhores vinhas e refinando o processo produtivo, que incluiu um novo cuidado com o envelhecimento e manutenção dos estoques de vinhos. O perfil humanista e empreendedor de Dona Antónia é o que inspira essa casa de vinhos a sempre estar evoluindo, cultivando, ao mesmo tempo, o orgulho de ter uma origem puramente portuguesa.


Como é maravilhoso para nós contarmos essas histórias de marcas que unem os dois locais em que vivemos hoje e que ultrapassam os limites da língua, cultura e rivalidades!


Contando tudo isso, temos dois pontos principais que talvez sejam os mais importantes e que iluminam nossos trabalhos em Branding: primeiro, essas marcas, como muitas do setor de vinhos, são frutos de colaborações entre famílias, fazem parte de empresas familiares; e segundo, elas representam um movimento simbólico que as próprias uvas e vinícolas fazem–uma adaptação, ano após ano, temporada após temporada, para crescer a partir de desafios e florescer para se tornarem produtos ainda mais fortes e longevos. Este segundo ponto está também muito ligado à ideia de um tema que falamos muito aqui na TroianoBranding, sobre como algumas marcas prosperam e sabem lidar com a passagem do tempo, enquanto outras acabam se dissipando, se perdendo no mercado. Exploramos esse tema com mais profundidade logo abaixo.


Jaime e Cecília Troiano sempre nos lembram do quanto empresas familiares, sejam elas brasileiras ou estrangeiras, tendem a ter um cuidado quase religioso com a sua razão de ser na sociedade e transformam sua marca em uma espécie de brasão familiar. É essa paixão e dedicação ao produto que move muitas vinícolas, muitas empresas e fabricantes de vinhos a serem geridos por famílias. De uma certa forma, a proximidade que existe entre os líderes de marcas como Ferreira, Graham’s e Taylor’s facilita muito a passagem dos valores da empresa de geração para geração. E um produto como o vinho do Porto precisa desta tradição, porque a história por trás da marca é quase tão importante quanto a qualidade da bebida. Em um mundo com cada vez mais liquidez nas relações, sentimentos e significados, como diz Zygmunt Bauman, o espírito de empresas familiares funciona quase como um antídoto, quebrando os padrões de superficialidade ao oferecer aos consumidores uma narrativa de marca muito mais autêntica e enraizada em dimensões humanas.


Em empresas onde essas características não são evidentes, com certeza a disseminação do amor aos vinhos para outros países e povos seria mais difícil, mais forçada. Só se conquista pessoas através de uma genuína razão de ser da marca. Fora disso, tudo sai muito mecânico e industrializado. E, também, a passagem do tempo é cruel para todos, mas é mais gentil para as marcas e empresas que conseguem se reinventar ano após ano, sem perder de vista sua essência.


Enfim, escolhemos esse tema por unir as nações em que vivemos hoje e por entender que marcas que têm alma e que são cuidadas com carinho, como o vinho, não tem data de validade–elas só melhoram com o tempo.


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